Maluquices apaixonantes

17 Outubro, 2009

Entrei no bar e logo vi o sujeito com camiseta da seleção brasileira. Era dia de jogo de futebol e este cara estava ali do lado de fora. Jogava bola sozinho no meio da rua e passava a impressão de ser contratado pelo bar para atrair clientela. Nem pense em mostrar cartão vermelho para ele que ele xinga o juíz e apronta maior bafafá, alguém me sussurrou quando viu que eu olhava para ele fixamente. E na seqüência disse que Ele era um louco que cada vez que tinha jogo da seleção ele ia para um bar e fazia exatamente aquilo. Detalhe: nunca falava. Mas todos o compreendiam.

Minas Gerais é mesmo um estado de se apaixonar por ele. As coisas mais maravilhosamente apaixonantes do mundo acontecem naquele pedacinho de terra que toda a Terra morre de inveja. Este rapaz aí em cima joga um bolão, mesmo sem a bola e sem outros jogadores, mas a cidade o trata com uma certa ambigüidade de compaixão e esquisitice. Ora dão água, ora dão risada, mas o fato é que se você já foi para Minas, já se apaixonou pelas histórias de lá.

Já ouviu falar do casal pobre que virou rico? Tá, tá, isso tem em todo o lugar. Mas ele, engraxate de profissão e até mesmo certo gosto e orgulho em ver seu trabalho bem elaborado, conseguiu uma chance com um tal que tinha codinome Voltaire. Este último não era aquele iluminista de outrora, mas as circunstâncias mostrarão como o Voltaire mineiro iluminou a vida do engraxate. O cara estava, como ele mesmo quis acreditar, na pior. A mulher engravidou e com o salário de engraxate não ia ter jeito. Mas, como ele quis logo em seguida acreditar, não estava na pior. Filho é filho, lindo de nascença e agraciado pelo meu estado mineiro, vou arrumar um emprego de oportunidades melhores. E Voltaire foi o iluminado, iluminista, que acreditou nele. Deu o emprego. E deram, ambos os quatro, Voltaire, Pai, Mãe e Filha, que mais tarde se soube ser menina, a volta por cima. Meus caros (e raros) leitores. Se vocês ouvissem a história como eu ouvi teriam sentido seus olhos pesarem ao mesmo tempo que os meus.

Entre os mais abastados também existem histórias. Alguns contam que nos meandros de um casamento que se dizia findado, mas ainda persistindo oficiosamente, ficou decidido que botariam fim ao relacionamento de fato e definitivo. Foram ao advogado e levantaram aquele sem número de propriedades. Irrelevante, como se poderá ver. Aquele advogado que era responsável por este divórcio era também responsável por outros. E estavam os dois ainda esposos na sala de espera. Chegou um rapaz, também para se divorciar. E é que o primeiro contou para o recém chegado como se sentia. Sabe quando o gado está no matadouro, na fila do matadouro, e sabe que vai morrer, mas a fila só anda para frente e não tem mais o que se fazer, então, este sou eu. A mulher se segura para não rir. Precisa mesmo segurar, porque rir seria o flagrante de si mesma. Seria o flagrante de que ela se apaixonou outrora por um sujeito excentríssimo e que seu ódio, agora desesperadamente inútil, não mais agüentava permanecer traído pelo fato de que ela acabara de se apaixonar novamente. Nem uma palavra o ainda esposo trocou com a ainda esposa. Entraram na sala do advogado. O papel estava pronto. Amigável, dizia o advogado, Sem problemas. Ela se segurou na cadeira, respirou fundo e até se contorceu. Era somente aquele instante e quando a tinta estivesse ali, naquela linha que abaixo continha o nome dele, estaria acabado. Precisaram ir ao extremo, chegaram ao limite mais profundo do teste de suas próprias convicções e disputas pela razão. E aconteceu que a linha, sedenta, não ganhou o gole de tinta que lhe seria de direito caso a paixão não existisse. Ele soltou a caneta, cruzou os braços e falou, Não, não sou a vaca e nem sou obrigado a assinar, quero ver quem vai me obrigar, não assino, não assino, Mas foram vocês que quiseram, separação amigável, dizia o advogado, Mas eu não sou obrigado a assinar nada, que bobeira, e que se for para terminar mesmo que eu seja obrigado a isto, porque a assinar eu não o sou. Cabeças duras os destes ainda hoje perdurantes esposos. Ele, ainda excentríssimo, apaixonado, e ela ainda apaixonada, apaixonada. E eu, mais uma vez, chorei.

Nos bares, soube de um sujeito meio diferente que ouve rock que foi ao mais badalado sertanejo com a namorada. Só porque ela gostava. E lá, ouviu com calma a tudo o que ela se lamentava depois de um dia cheio de preocupações. Mas lá neste bar, um amigo encontrou outro que era de outro estado. Brindaram o melhor motivo do mundo: encontrarem-se na melhor terra e compartilharem as melhores histórias. Num outro restaurante a mulher chega até a mesa para servir os clientes. E um deles pede suco de morango. Suco, suco, com água, ela pegunta, Sim, suco, suco, com água. Olhava ele para o cardápio até ela dizer Você já tomou o suco de morango daqui, Não, e olhou para ela atentamente pela estranheza da pergunta incomum, É que o suco daqui é aguado, o de morango tem que ser com leite, É só colocar mais fruta, ora, É que tem medida, É só mudar a medida, Mas não dá e o chefe pediu para avisar que era assim. Os paulistas se contorcem de falta de paciência com tal situação, mas é que em Minas não tem como tratar fatos deste porte sem amor. Porque apesar de a razão nos mostrar que certas coisas parecem óbvias demais, a emoção que se desloca por baixo dos sentidos da pele faz com que tenhamos a mesma ternura com que somos tratados pela atendente que nos diz, carinhosamente, que seu chefe assim o quis. E nenhum tipo de conflito se cria. Apenas pedimos outro suco. E aqueles que querem morango com leite podem ficar, desta forma, sossegados de o terem a tempo e a hora. E, ao fim, já quando nem mais se pensa sobre o assunto, ela pede desculpas por aquele suco que já nem fazia mais diferença.

Pão de queijo! Família… Fim de semana. E as risadas não cessavam. Alguns começaram a falar sobre o movimento helicoidal envolvido na construção da peça que compõe o cabeçote de um rolamento. Mas é que o resultado senoidal dos gráficos não poderiam resultar em desacordo entre a teoria de Darwin e Einstein, porquanto não fosse entendida sob o ponto de vista de Voltaire. E é somente a partir desta última perspectiva é que a realidade da antiga tribo Tchangulli se tornou obtusa. E riam. E o Voltaire voltou para a cena. Em outra história. Outro momento. Não chorei enquanto me divertia com as maluquíssimas histórias construídas na mais pura livre associação em mesa de grande família.

Mas é certo que chorei ao ir embora.


Diamantes e sapos

20 Setembro, 2009

Que as mulheres preferem os canalhas não é segredo. Aquele olhar conquistador, agressivo, que não leva em conta cor, credo ou relacionamentos faz as meninas derreterem e respirarem mais fundo, esquecendo a capacidade de raciocinar e pensar nos prós e contras, no próximo passo.

Os canalhas, que nada tem a ver com isso, adicionam um sinal de mais e o nome da vítima nas suas contas, elevando assim o seu status de conquistador, barato ou caro, pois isso, para elas, quando se trata de um canalha, tanto faz.

Quando acontece o momento do segundo passo, aí sim as coisas complicam. As mulheres tem a idéia fixa de querer transformar coisas em outras. Um canalha não nasce canalha. Ele se transforma, e nunca mais volta a seu estado natural. Mulheres batem a cabeça na parede há tempos, insistindo que um homem assim pode ser um pai de família responsável, fiel e trabalhador, mas não, não é assim que as coisas funcionam.

Homens de todos os cantos do mundo, quando descobrem o prazer da carne, e o prazer de enganar uma mulher que, em um estado normal, é superior à ele, viciam nesses atos. Conhecer, conquistar e destruir, reconquistar e destruir, reconquistar e destruir, e então partir, sempre com uma vantagem, uma boa margem de segurança, pois se você se machuca, não fisicamente, não é canalha. Se você se machuca fisicamente, precisa treinar melhor as fugas rápidas.

A preferência pelos canalhas é tanta, que muitas vezes esquecem o que têm, ou o que encontram no caminho. Esse desperdício não é privilégio delas, os homens também o cometem, mas elas crescem com essa idéia na cabeça. A fábula da princesa que transforma o sapo em príncipe com um beijo. Bem, não é apenas com o beijo que elas tentam, e fracassam sempre. É quase como se deparar com duas pedras. Um diamante bruto, que precisa apenas de empenho, e um diamante já esculpido, reluzente. Elas esnobam o primeiro, e caem sobre o que brilha mais. O problema é que o diamante ao qual elas se prendem com unhas, dentes e lábios, não passa de uma zircônia qualquer.

Mulheres são seres incríveis. Lindas, sublimes, inteligentes, com um sentido a mais que nós, homens, fortes e fracas ao mesmo tempo, mas têm um defeito capital. Querem tanto transformar o sapo em príncipe, que quando se deparam com um príncipe, o transformam em sapo.

Postado originalmente aqui.